O Brasil tem avançado constantemente na vigilância e combate das doenças infecciosas. Prova disto é a carta enviada, meses atrás, pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, à presidenta Dilma Rousseff, parabenizando o país pelas ações de controle da tuberculose.
Outros programas, como o de controle do HVI/AIDS, e os números no combate à dengue e à influenza também refletem avanços e sinalizam o reconhecimento internacional do aparente momento de desenvolvimento do país no âmbito da infectologia.
Em entrevista exclusiva ao Boletim da SBI, Jarbas Barbosa da Silva Jr, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, comenta as medidas que vem sendo adotadas e as perspectivas para o futuro.
Quais as principais doenças infecciosas no país?
Apesar dos investimentos e do reconhecimento no combate das doenças infecciosas, temos ainda hoje no país números consideráveis de prevalência de dengue, aids, tuberculose e hepatite C, além das doenças demarcadas pelo Plano Integrado de Doenças Transmissíveis Relacionadas à Pobreza, como hanseníase, esquistossomose e a oncocercose.
Os números de internações pelo SUS por conta destas doenças têm aumentado ou diminuído? Por quê?
Sabemos que nos últimos anos tem ocorrido uma redução no número de internações por conta das doenças infecciosas. Em parte, isso se deve à evolução do tratamento ambulatorial e a investimentos com vacinas, medicamentos, contratação de agentes de controle de endemias, manutenção das redes assistenciais, entre outros.
Com relação a medicamentos e tratamentos oferecidos pelo SUS, o que ainda falta, na opinião do senhor, relacionado às doenças infecciosas?
Tudo o que é disponível hoje, em âmbito mundial, já está sendo incluído no Brasil. Mesmo medicamentos ultrarrecentes, como os inibidores de protease para Hepatite C, já estão sendo incorporados para entrega gratuita. Somos um dos poucos países de renda média a fazer isso.
Temos investindo, ainda, em novas tecnologias, como os testes rápidos para tuberculose, HIV, sífilis e hepatite, mais precisos e que fazem toda a diferença para a atuação do profissional. Mantemos no Ministério da Saúde um sistema de revisão contínua para a inserção de novas tecnologias, justamente para que não estejamos defasados em termos de novidades.
Qual é o panorama das doenças infecciosas no país?
No Brasil, como na maioria dos países com renda média semelhante, e em áreas tropicais, temos um panorama muito diversificado. Ao mesmo tempo em que as doenças transmissíveis vêm reduzindo a sua carga de mortalidade, algumas partes da população apresentam indicadores muito maiores do que a média. É o caso da tuberculose entre moradores de rua, ou entre pessoas reclusas, que chega a ter a incidência 20 ou 30 vezes mais alta do que na população em geral. Um dos desafios hoje é mapear os grupos que, por fatores como a condição social, estão mais expostos ao risco e desenvolver estratégias adequadas para alcançar essa população.
Quais medidas o Ministério da Saúde vem adotando para evoluir neste cenário?
Estamos buscando a integração, como no caso da parceria com a estratégia de Saúde da Família, peça chave para garantir que as ações de combate às doenças infecciosas cheguem a pessoas com barreiras sociais ou econômicas. A Saúde da Família cobre hoje, no Brasil, metade da população. A grande maioria desses brasileiros se concentra justamente nas áreas com maior incidência de doenças infecciosas. Fazer esta integração é eliminar uma barreira para que a população mais vulnerável tenha acesso aos mecanismos de combate a essas doenças. Outro passo é a criação de estratégias mais adequadas à demanda. Nessa área temos, como exemplo, ações em conjunto com o sistema de justiça, que nos ajuda a mapear e combater as doenças infecciosas dentro de presídios. Também temos implementado ações que visam a facilitar o acesso ao teste diagnóstico de HIV para a população de maior risco, levando o exame em equipamentos móveis até esta população.
Há algum medicamento ou tratamento na iminência de ser ofertados pelo SUS, ou que passou a ser oferecido recentemente?
Temos o caso dos antiretrovirais, que com a participação de especialistas e infectologistas, tentamos nos manter atualizados. Há também novos medicamentos para o tratamento da hepatite C, como os inibidores de protease, que entram agora com a esperança de dobrar as chances de cura em alguns casos. Também temos investido em procedimentos de ajuste da estratégia, pois muitas vezes o medicamento e o tratamento já estão disponíveis, mas não estão sendo implantados da melhor maneira. Então, muitas vezes, a solução não é ter uma nova vacina ou uma nova droga, mas estudar as evidências e o conhecimento cientifico para que se faça a adequação da estratégia.
Como avalia o atual programa de controle das doenças infecciosas se comparado ao de outros países?
O Brasil avançou muito, claro, mas ainda há muita coisa para fazer. Quando dizemos “evoluiu” não estamos eliminando os desafios e a necessidade de melhorar constantemente as atividades. Mas vemos no programa de aids, por exemplo, uma proposta internacionalmente reconhecida por sua eficiência: hoje são mais de 200 mil pessoas em tratamento antirretroviral gratuito. O reconhecimento no combate a dengue e tuberculose também nos mostra que estamos no caminho certo, sem nos fazer esquecer dos desafios, de como fazer com que as pessoas saibam mais cedo das suas condições e desenvolver estratégias mais eficientes para alcançar as populações mais vulneráveis.
Quais as perspectivas de controle dessas doenças a curto, médio e longo prazo?
A cada doença temos um objetivo diferente. Algumas já podemos pensar em uma estratégia de eliminação quanto a problema de saúde público. Ou seja, no caso da hanseníase, não temos ainda ferramentas que nos permitam a erradicação da doença, mas já é possível reduzir a carga dela de modo que não seja mais um peso para as pessoas. Para outras doenças, como no caso da dengue, nos últimos dois anos nossa meta tem sido reduzir a mortalidade, e já conseguimos uma queda de 80% graças à adoção de tecnologias simplificadas e acessíveis nas unidades de saúde. Para cada doença, um objetivo único: manter e acelerar a redução dos casos e das mortes relacionados a elas.
Qual mensagem gostaria de deixar aos infectologistas?
Gostaria de ressaltar a importância da parceria que temos com Sociedades e especialistas, que têm um papel fundamental na formação e na difusão do conhecimento. Também fazer um alerta para a atenção e preparação envolvendo a formação dos médicos e dos sistemas de saúde para as doenças transmissíveis. É importante lembrar que as doenças transmissíveis continuam sendo um desafio na saúde pública; os currículos das faculdades de medicina devem preparar os novos profissionais para diagnosticar e tratar essas doenças. Muitas vezes, geramos a falsa sensação de que certas doenças acabaram ou estão acabando, quando não é verdade. Algumas doenças podem estar reduzidas, mas ainda há incidência e sempre há a possibilidade de uma nova doença infecciosa surgir.
Fonte: SBI